Houve uma altura em que entrar na Internet não era algo automático, invisível e instantâneo. Era quase um ritual. Ligávamos o computador, esperávamos que o Windows arrancasse, abríamos o navegador e, algures ao lado do monitor, um modem começava a cantar aquela sinfonia metálica inconfundível que hoje desperta nostalgia em toda uma geração. Para muitos de nós, esse som vinha de um equipamento da US Robotics.
Nos anos 90, a USRobotics tornou-se uma das marcas mais icónicas da revolução digital doméstica. Antes da fibra, do Wi-Fi e dos smartphones, eram os seus modems que abriam a porta para um mundo novo chamado Internet. E embora hoje uma ligação de 56K pareça pré-histórica, na altura aquilo era pura magia tecnológica. Bastavam alguns minutos ligados para sentir que estávamos a tocar no futuro.
A empresa nasceu em 1976, nos Estados Unidos, inspirando o seu nome no universo de ficção científica de Isaac Asimov. Durante os primeiros anos desenvolveu modems para comunicações de dados, mas foi nos anos 90 que explodiu verdadeiramente em popularidade graças às lendárias linhas Sportster e Courier. Quem viveu essa época provavelmente lembra-se dos modems externos cheios de LEDs a piscar ou das versões internas instaladas nos desktops da altura. E havia quase uma espécie de orgulho técnico em ter um US Robotics em vez de um modem "genérico". A reputação de estabilidade e qualidade era real.
Naquela época, a Internet tinha outro sabor. Navegávamos sem redes sociais, sem streaming e sem notificações constantes. Havia tempo para explorar. Esperava-se minutos por uma imagem carregar num site, faziam-se downloads durante horas e entrar num chat do mIRC parecia quase uma experiência futurista. Muitos de nós descobrimos tecnologia graças a esses momentos. Aprendíamos sem perceber que estávamos a aprender. E no meio disso tudo, a US Robotics estava quase sempre presente.
Os famosos modems 56K acabaram por se tornar um símbolo daquela geração tecnológica. Em Portugal, era comum encontrar equipamentos USR em computadores de marcas como Compaq, IBM ou Packard Bell. O simples ato de ouvir o handshake do modem tornou-se parte da memória coletiva de quem cresceu naquela década. E havia sempre aquela clássica frase lá em casa: "Sai da Internet que preciso do telefone".
Com o crescimento da Internet doméstica, a US Robotics também entrou no mercado das redes e routers, numa altura em que começávamos a descobrir o conceito de partilhar Internet por vários computadores. Era o início das redes domésticas como hoje as conhecemos. O sucesso da marca foi tão grande que acabou adquirida pela 3Com em 1997, num dos grandes negócios tecnológicos da época. Mas pouco tempo depois, o mercado mudou radicalmente.
A chegada da banda larga veio transformar tudo. O ADSL e o cabo tornaram os modems dial-up obsoletos quase da noite para o dia. De repente, deixámos de ouvir o modem a ligar, a Internet passou a estar "sempre disponível" e aquela sensação especial de entrar online começou lentamente a desaparecer. Ganhámos velocidade, estabilidade e conveniência - mas talvez tenhamos perdido um pouco da magia.
Hoje, a USR continua a existir, embora muito longe do protagonismo dos seus tempos dourados. A marca ainda opera em nichos industriais e empresariais ligados a comunicações legacy, mas já não ocupa o lugar de destaque que teve nas secretárias de milhões de utilizadores pelo mundo. Ainda assim, para quem viveu os anos 90, a US Robotics continua a representar muito mais do que simples hardware. Representa uma era inteira da tecnologia.
Uma era em que a Internet parecia um território novo por descobrir. Em que passávamos tardes a explorar sites aleatórios, a personalizar o ICQ ou o mIRC, a esperar pacientemente por downloads e a aprender tecnologia quase sem dar por isso. Hoje temos ligações gigabit, cloud, inteligência artificial e redes wireless extremamente avançadas. Tudo é mais rápido, mais poderoso e mais conveniente. Mas há qualquer coisa naquele tempo mais lento, mais simples e mais "humano" que continua difícil de esquecer.
Talvez porque naquela altura não estávamos apenas ligados à Internet. Estávamos a descobrir um novo mundo.



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